20 de outubro de 2017

Dia 5: Portugal em Landsberg am Lech

Entramos no primeiro café que apanhamos em Landsberg para nos hidratarmos. O calor está como é o calor bávaro: insuportável. Peço águas e uma Apfelstrudel e é só quando me sento na esplanada que reparo em palavras familiares que não são as que ando a falar por estes dias. Leio "arroz de marisco" sem que o meu cérebro se aperceba do Português. Apenas acho estranho que sirvam arroz de marisco num sítio destes tão longe do mar e do Sul.
É só quando vejo a tabuleta de "Serviço ao Balcão" que me dou conta do prodígio: eu estou a ler Português num café à beira do Lech. Viva Portugal! Raça de gente aventureira espalhada pelas quatro partidas do mundo. Venho a descobrir que a dona do café é alentejana de gema e acho piada a comer uma típica Apfelstrudel num café alentejano em plena Romantische Strasse. É um pensamento agradável (bem mais do que o outro que trago na cabeça e que ocorre sempre e porque há um passado aqui que jamais se esquece, que tentamos não nos importune mas que nos importuna. Não comento com o meu marido nem com os nossos padrinhos que aqui em Landsberg foi onde o Diabo escreveu um livro maldito antes de queimar livros benditos. Não trago essa memória à oralidade verbal que lhes macularia a impressão bonita de Landsberg. Dir-lhes-ei mais tarde e em passagem porque também não quero que descubram e me digam que não lhes disse. Porém, não lhes digo, não agora e não aqui. Mais tarde...).

18 de outubro de 2017

Dia 5: Landsberg am Lech

Esta é talvez a imagem mais icónica de Landsberg am Lech (literalmente Landsberg no rio Lech): as casinhas coloridas sobre o rio que corre sobre degraus. Landsberg am Lech é uma das vilas-postal da Romantische Strasse, a Estrada Romântica. Chegamos num dia bonito de sol e calor que aviva as cores e as contrasta com o céu e a água. Venho feliz e contente por estar aqui e poder mostrar uma pérola destas ao meu marido e aos meus padrinhos. Novamente dou por mim no papel de guia. não desgosto dessa posição. Sorrimos imenso enquanto tiramos fotos com este pano de fundo e atravessamos a ponte até à vila, a ponte cheia de cadeados de amor como quase todas as pontes em locais pitorescos.
Entramos na vila e damos conta de que chegamos em dia de Volta à Baviera em Bicicleta. Não é exactamente como uma Volta a Portugal ou um Tour de France. É uma volta amadora que se faz só aos fins-de-semana durante Agosto. Vê-se de tudo: palhaços a pedalar, famílias, grupos disto e daquilo e muito boa disposição e camaradagem. O último lugar tem mais valor do que o primeiro. Valentes! Sentamo-nos numa esplanada no centro da vila. Na mesa ao lado um grupo de ciclistas vestidos a rigor não participou nesta etapa porque preferiu a esplanada. Explicam-nos a dinâmica da coisa e a dinâmica é não haver muita dinâmica a não ser para a diversão.
Olho para o meu marido e noto coisas que imagino o seu cérebro lhe estará a dizer. Imagino as quebras de estereótipos que lhe vão assomando à mente. Ainda não lhe digo nada. Não enceto ainda esse diálogo. Prefiro que ele chegue às suas conclusões por si próprio e, se quiser, me diga as suas opiniões tecidas in loco, aqui onde o trago para que conheça de mim...

16 de outubro de 2017

Dia 5: Depois da Tempestade

Passava das onze da noite quando, depois de passada a tempestade que nos apanhou no restaurante, nos fizémos à estrada. No caminho, demos com um caos de escuridão que passava à frente da luz dos faróis do carro. Levou-nos mais de uma hora de susto, árvores tombadas a cortar estradas e GPS em constante refazer de rotas até chegar ao hotel. Ao pequeno-almoço do dia seguinte determinámos ir aos sítios onde tínhamos encontrado árvores gigantes tomadas a impedir a passagem. Queríamos ver com luz do dia como tinha sido a escuridão.
Encontrámo-las, às árvores. Colossos abatidos pela ventania já devidamente retirados das estradas, entretanto varridas de destroços e sem sinal aparente de que, poucas horas antes, o mundo parecia ter desabado. Momentaneamente penso em termos comparativos como seria em Portugal se houvesse a quantidade de árvores imensas a impedir a circulação nas estradas. Quantas horas demorariam bombeiros e protecção civil a desimpedirem as vias? Fecho o pensamento porque não me apetecem as comparações e porque, fora de Portugal, olho para o país com olhos sempre mais benevolentes. Siga a viagem.

13 de outubro de 2017

Dia 4: Ammersee e uma tempestade

O sol põe-se quando chegamos a Ammersee. Apesar da latitude, há qualquer coisa mediterrânica neste local. O lago plácido polvilhado de barquinhos de recreio lembra as costas veraneantes do Mediterrâneo e um restaurante italiano debruçado sobre a água ajuda à comparação. No terraço do restaurante, um papelinho com o meu nome escrito entre o francês e o alemão indica a mesa que reservei para o jantar. Comigo o meu marido e os padrinhos americanos que nos casaram o ano passado em Las Vegas. Noto a internacionalidade da cena: o restaurante italiano no lago alemão, o meu marido português, os padrinhos made in USA e o meu hibridismo luso-germânico numa paisagem que lembra o Sul. Sentamo-nos contemplando o lago tingido dos laranjas do ocaso.
Ao longe, nuvens de trovoada. Pergunto se não seria melhor irmos para uma mesa dentro de portas.
- Nein, aqui só chove se fizer vento - garante-me a dona do restaurante. Acredito desconfiando.
Cinco minutos depois, o vento chega e, com ele, a chuva em pingos grossos e pesados. Levantamos âncora e vamos para dentro. A luz falha e falta. O vento ruge e uiva. Tudo abana e chego a pensar que um dilúvio e um ciclone levarão o restaurante e as árvores, cujas folhas e alguns ramos caem sobre o telhado. Apesar do barulho da tormenta continuamos o repasto que sabe a pesto e aos sabores meridionais da bella Italia.
É só quando acabamos o jantar e vamos para "casa" no nosso hotel em Starnberg, a vários quilómetros de distância, que tomamos consciência da enormidade da tempestade. Árvores tombadas cortam-nos o caminho. Abençoada era de GPS e carros inteligentes. No interior desta Alemanha profunda, não há luz nas estradas rurais. O vendaval encheu as vias de destroços de árvores. A chuva encharcou tudo e levamos mais de uma hora de aventura a chegar a Starnberg que também foi atingida pela inclemência.
No átrio do hotel, as moças da Recepção estão num desalinho de cabelos e roupas molhadas. Nas faces, um ar de perplexidade perante uma coisa daquelas. 36º de dia, uma enormidade pavorosa, e à noite aquela calamidade de água e vento. Nada normal. Amanhã queremos ir apreciar o estrago da noite...

9 de outubro de 2017

Dia 4: Chamar a música

Dias de sol trazem sempre música. Que digo? Nesgas de sol trazem sempre música. A minha memória mais marcada de Salzburg (que é na Áustria e, por ora, fora deste relato) é o som de música em cada esquina. Em Munique a mesma coisa, em Bremen... E é música, música. Não que pop ou rock ou pimba não sejam música (ainda que eu tenha os meus preconceitos com a última). É música de alma universal. Violoncelos, pianos, violinos. Música clássica trabalhada de moderno. Composições originais, covers, os clássicos. Música a três dimensões. Cresci rodeada desta música tridimensional na rua, em concertos ao vivo, na faculdade, onde passei as maiores vergonhas por tocar sax-alto num curso de clássicos tradicionais como a bela da "Die Forelle" do Schubert. O que eu sofri... (por isso, leiam "a bela da Truta", que é o que quer dizer Forelle na ironia do desespero).
- Não temos lugar para um sax-alto! - disse-me o maestro em pleno afrontamento pela minha ousadia. Como ousava eu escolher um curso daqueles se só sabia tocar aquele desgraçado instrumento? Deu-me para as mãos uns ferrinhos e passei as horas todas do curso a ler as pautas dos outros e a esquecer-me de tocar os hediondos ferrinhos quando a partitura pedia um "plim" ou um "tlim" ou um raio qualquer que eu deixava fugir para fúria dos meus colegas que tocavam os instrumentos de garbo e primor.
Não consigo ouvir música enlatada, como chamo à música de CDs, MPs e o diabo. Música para mim é ao vivo. É música transportada no ar e no som da cidade. Ando pelas ruas de Munique e revivo memórias. Olho para os olhos do meu marido a ver se os ouvidos dele ouvem o mesmo que eu. Sorrio. Caminho sorrindo embrulhada em música.
Páro e sorrio. Oiço. Vivo. Sinto.

6 de outubro de 2017

Dia 4: De compras em Munique e já fui capa de revista

Quando eu era pequena vestiam-me com roupas tradicionais ao Domingo e por graça. Um dia, estava eu nesses preparos a brincar num jardim, um fotógrafo viu-me e pediu à Senhora Minha Mãe para me tirar umas fotos. Era fotógrafo de uma revista chamada Eltern (Pais) que, por acaso, ainda existe. E lá saiu na capa esta Blonde de quatro aninhos, caracolinhos e vestidinho com florzinhas, blusinha com mangas de balão e aventalinho branco com rendinhas. Sempre tive uma adoração por roupa típica alemã. Acho que me vem dessa idade.
Aqui em Portugal, ninguém ousa vestir roupas tradicionais a não ser num rancho folclórico. É uma coisa pirosa, antiquada, em suma, uma vergonha. Na Alemanha, não é bem assim. Talvez tenha algo a ver com um certo orgulho pátrio, um sentimento de pertença que não renega nem tradições nem passados. Gosto disso, desse desassombro pela cultura legada geração atrás de geração.
Andei a namorar uns quantos vestidos para trazer mas, como se diz, caí na real. Afinal, que uso eu iria dar a um vestido típico alemão aqui em Portugal? Só se fosse para me mascarar. Mas os chamamentos são o que são e acabei por comprar umas sabrinas modernas da colecção especial de Outono para a Oktoberfest. E bem à maneira bávara têm bordado dentro do coraçãozinho na biqueira, uma Edelweiss e a palavra bávara para "querida", Spatzl. Sim, que os bávaros não falam alemão.
Não trouxe o vestido, mas trouxe umas sabrinas do mais "à laia de tradicional" possível. Estão fartas de correr caminho aqui por Portugal...

4 de outubro de 2017

Dia 4: Frauenkirche

As cúpulas da Frauenkirche em Munique são tão famosas quanto a Neues Rathaus e o seu Glockenspiel, o relógio animado por dançarinos mecânicos. É para lá que sigo quando as badaladas na Rathaus acabam e os turistas dispersam. Há uma ânsia qualquer que me faz ir ali já e não a outra qualquer parte de Munique. Reconheço a ânsia. Chama-se gratidão.
Gratidão é um sentimento morno, nem quente nem frio, agradável. A gratidão permite-nos ver com os olhos e o coração, permite-nos perceber, apreciar. Sim, é isso talvez mais do que outra coisa: apreciar. Tenho tanto por que estar grata e por isso agradeço a tudo, de bom e de mau e de assim-assim, que me permitiu chegar aqui, a hoje, a este hoje em particular, um dia sem nada de especial mas com tudo de especial. A gratidão pelas coisas pouco especiais é a gratidão por tudo o que é especial. Estou grata e, nessa gratidão, o coração rejubila.
Não é como turista que venho à Frauenkirche, é como peregrina. Peregrina da Vida.